terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

18+ A TERAPIA

 



    - Essa terapia me fará um psicólogo conhecido no mundo todo – suspirava Allan, encantado ao ver as pacientes, sentadas em círculo, na sua ampla sala de estar. Uma mistura de adrenalina e odores tornava, para ele, o espaço denso e acolhedor.

          - Acho que eu sou a única pessoa neste mundo que ainda gosta de músicas antigas. Doutor, o senhor pode colocar a canção “Dream a Little Dream of Me”? Adoro a voz de Louis Armstrong.- Era a canção que ela estava ouvindo na padaria, onde tomava seu café da manhã, antes de aceitar a proposta do psicólogo.

          Allan ajeitou seu paletó (“preciso comprar um que se ajuste melhor ao meu corpo, este está largo”) e colocou na vitrola o velho disco de vinil para rodar. Depois, voltou a aquecer o bule com café no fogão improvisado (“daqui há alguns anos, estarei num lugar bem mais confortável que aqui”).

          - Eu não gosto dessas músicas velhas, eu prefiro pop music, como Madonna e Lady Gaga – retrucou Laura, enquanto segurava uma lixa, exibindo suas unhas vermelhas com o esmalte corroído pela rotina de lavar pratos na lanchonete. Em outros dias, no vespertino, estaria nas ruas fazendo programas para completar o orçamento, mas na semana anterior foi convencida que a terapia era de extrema necessidade para ela.  

– Me sinto na casa daqueles clientes velhos e carentes, fedendo a mofo e tocando canções esquecidas – continuou a jovem.

          - Eu desprezo totalmente sua profissão. Você é bonita e parece ser inteligente, deveria fazer algo mais decente do que, Deus me perdoe, vender seu corpo. – Lívia tinha pavor só de imaginar que a moça a sua frente praticava tamanhas obscenidades, e rezava em pensamento todas as vezes em que Laura relatava detalhes mais íntimos. De tanto apertar o terço em suas mãos, seus dedos já estavam marcados pelas bolinhas de plástico. Talvez Allan estivesse certo quando, na saída da igreja, a convenceu a participar do tratamento.

          - Continuo achando que... A presença de Nataly... Não é adequada. Quantos anos... Você tem... Querida? – perguntou Ana, a jovem estudante de fotografia que estava sentada entre a menina e Laura.

          - Tenho doze.

          - O que você... Está desenhando?

          - Meu urso – exibindo seu caderno aberto para Ana, mostrou um esboço do que seria realmente o brinquedo referido.

          - Vai ficar muito... Lindo quando... Terminar.

          - Obrigada, mas acho que vai demorar. Meus olhos doem.

          As duas estudantes estavam na parada de ônibus quando viram que a vida poderia ser mais leve, e ganhar um novo sentido através da terapia do recém-formado.

          - Boa tarde meninas, vamos começar nossa sessão?

          Allan sentou-se na roda. As pacientes permaneceram imóveis.

          - Vejo que hoje vocês estão bem mais entrosadas que ontem. Fico feliz com isso. Neste segundo encontro quero ouvir mais sobre as dores de cada uma. Antes disso, alguém aceita café?

          As diversas vozes femininas pelo cômodo ecoaram um pouco mais altas que o som da música que tocava, numa negativa única. Mesmo assim, sabendo que Nataly adorava a bebida, foi até a jovem e a vez beber uns goles.

          - Cuidado para não se sujar – advertiu o psicólogo, passando o dedo no canto inferior dos lábios da estudante.

          - Estava muito bom. Agradeço.

          - Sabia que iria gostar. Estão gostando desta canção que está rodando?

          - Sim, psicólogo. Eu adoro a atmosfera que ela cria na sala...

          - Certo, Amélia. A propósito, você, assim como as demais, está muito bonita hoje.

          - Obrigada.

          - Mas eu teria escolhido um batom mais chamativo, uma cor mais quente quem sabe. Acho que este tom escuro não ficou tão bem. Permita-me.

          O jovem colocou a xícara de café na mesinha ao lado, e dirigindo-se até Laura pegou um batom vermelho de sua bolsa, passando com cuidado nos lábios de Amélia, sentindo a textura da pele e vendo a transformação ocorrer.

          - Acho que fiquei bem mais bonita agora. Obrigada, doutor.

          - De nada. Bom, Lívia, vejo que você está quieta hoje.

          - Estou em sintonia com meu Deus.

          - Então quem sabe você pode ser a primeira. Onde dói?

          - Viver dói. Nossos sonhos são espedaçados com a facilidade que arrancamos um fio de cabelo. Eu sinto dores nas Cinco Santas Chagas de Cristo. Sinto os meus pulsos e pés como se estivessem sendo perfurados, e meu peito rasgado. Na verdade não consigo mexer meus pés.

          - Lívia, quem sabe o seu fanatismo religioso está fazendo com que sinta isso.

          - Ela é louquinha. Falta é sexo, dos bons – interrompeu Laura, que pousava as mãos em seus mamilos sob a blusa erguida, justinha, que os cobriam. – A propósito, só eu que estou sentindo uma sensação gelada no abdome?

          - Minha Nossa Senhora – a cristã fazia o sinal da cruz e apertava mais e mais o terço.

          - Garotas, por favor. Vamos prosseguir. Nataly, onde é sua dor?

          - Eu sinto dificuldades para respirar... Sinto meus pulmões rasgando... Cada vez que puxo o ar. – E enquanto se esforçava para entoar as palavras, observava pela grande janela, como um pássaro planejando novos vôos.

          - Ontem você disse que ficou muito assustada quando viu as imagens que retratavam a punição nórdica da Águia de Sangue. Será que teria algo a ver?

          - Não me faça... Lembrar delas. Quanta dor essa gente... Deve ter sentido ao ter suas costelas... Separadas da coluna vertebral... E seus pulmões estendidos... Para fora do corpo? Quanta dor! – A jovem estudante permanecia estática. Allan aproximou-se dela e apertou seus ombros pelas costas. – Você vai ficar bem. Vai alcançar as estrelas com sua arte.

          - Obrigada... Doutor...

          - E você, Amélia, o que dói? – O psicólogo percebeu que as marcas roxas pelo seu próprio corpo incomodavam, mas a prioridade era as pacientes. Ele ficaria para depois.

          - Eu não sei, parece que dancei por horas a fio. Minhas pernas latejam e meu pescoço parece que vai deixar minha cabeça cair de tanto que ela pesa. Mas minha maior dor é na altura das pregas vocais.

          - Nos últimos dias você discutiu com alguém? Falou o que não devia?

          - Não lembro, doutor. Me sinto tão deslocada neste mundo. Parece que não me encaixo em grupo nenhum, que nasci na década errada. Pouco falo.

          - Estranho.. Laura, sua vez.

          - Eu sinto dor na minha barriga, como se eu tivesse passado por uma cesariana sem anestesia.

          - Você já teve filhos?

          - Não. Estou grávida. Eu ainda não decidi se quero ou não continuar com a gravidez. Como vou sustentar? Eu nunca deveria ter aceitado aquele programa sem camisinha. Mas eu não tive escolha: ou isso ou ser jogada na rua.

          - Eu repito, você deveria fazer outra coisa da vida.

          - Lívia, você já teve sua vez de falar. Continue rezando. Ou melhor, me dá este terço.

          Allan imaginou Laura levantando da cadeira e, tomando o objeto em mão, enfiando-o em sua boca, deixando apenas Cristo pendurado pelo lado de fora, balançando-o com a língua. Mas antes que isso pudesse acontecer, foi até Lívia e certificou-se que o terço estava firme entre os dedos dela.

          - Então Ana, quer falar o que dói?

          A menina encolhida sob a cadeira, abraçando seu caderno contra o peito, nada dizia.

          - Pode falar, menininha. – O jovem ergueu-se e ajeitou o laço que enfeitava os cabelos molhados da pequena.

          - Eu sinto dor nos olhos e entre as pernas.

          - Acho que você está desenhando demais.

          - Pode ser.

          - Minha querida, é normal sentir dor quando a menstruação chega. Você está menstruada? – perguntou Amélia.

          - Estou sangrando.

          - Então deve ser isso.

          A tarde terminara e a noite reinava sobre a cidade. Milhões de estrelas se exibiam pela grande janela da cobertura onde estavam. A lua cheia iluminava quase tanto quanto a luz do apartamento. Como era bom ser o único habitante daquele prédio, e estar tão perto de Deus e longe dos homens. Ainda faltava muito para chamar a casa de lar, mas em boa companhia, qualquer espaço decadente se torna aconchegante. Allan sabia que elas seriam curadas na terapia que tanto defendeu durante seus estudos.

          E ele começara a sentir fome. Quase onze horas da noite, deixou a roda e foi buscar um pedaço de pizza fria, resto do dia anterior.

- Vocês querem?

A agulha se recolhera no toca discos, o silêncio reinava. Amélia dormia com sua cabeça pendendo entre os joelhos. Nataly observava o encanto do céu estrelado, com os braços suspensos e abertos. Lívia mantinha-se numa oração secreta, Laura exibia seu ventre, que, após saber da gravidez pela boca dela, chamava mais atenção para o jovem psicólogo e Ana dormira abraçada ao caderno, com o sangue escorrendo pelas coxas, joelhos, tornozelos e pés, manchando o tapete da sala.

- Coitadinha de vocês – ele pensou.

(Barulhos de passos distantes pela escadaria do prédio.)

- Meu coração sofre com as dores de cada uma.

(Os passos vão se aproximando cada vez mais.)

- Descansem, amanhã temos mais uma sessão de terapia.

Com um forte chute, a improvisada porta de madeira foi ao chão. Policiais fortemente armados invadiram o apartamento e viram, sentadas em cadeiras dispostas em círculo, quatro mulheres e uma menina mortas, uma com o pescoço cortado após ser obrigada (segundo laudo posterior) a dançar por horas sem parar a mesma canção, seminua. Outra foi executada conforme os ferimentos de Cristo, tendo os pés pregados em um pedaço de madeira. A dançarina desaparecida da boate Sedução teve sua barriga aberta e morreu de hemorragia. Seu feto estava jogado ao seu lado. A estudante de fotografia foi transformada numa Águia de Sangue, e estava sentada bem próxima a estrutura da janela, que já não tinha vidros. A criança teve seus olhos arrancados com facas e foi cruelmente profanada após a morte. A noite estava estrelada, a lua cheia iluminava santos e pecadores.

Ao ser conduzido para fora do apartamento, Allan tentou despedir-se das pacientes, mas conforme mais policiais e investigadores entravam, não conseguia vê-las, e isso partia seu coração. Elas precisavam dele, não podia abandoná-las assim.

- Eu voltarei, garotas. Eu ainda vou curar as dores de cada uma de vocês. 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

PRELÚDIO AO TEMPO

 

Hoje vou parar o tempo

Irei parar as horas

Por um tempo

Momento afora

 

O tempo faz

O tempo traz

O tempo cria

Amor, sonhos, alegrias

União, amizades, fantasias

 

O tempo leva

O tempo destrói

O tempo mata

Amor, sonhos, alegrias

União, amizades, fantasias

 

Momentos, um beijo de amor

Saudade, depois da dor

Carinho, o vento a soprar

Afeição, que existia no olhar

 

O tempo é imortal

O tempo perpetua-se nos momentos

Tempo, não se leva

Tempo, não se destrói

Tempo e nós

 

O tempo não se cria

Tempo, não se faz

Tempo, nas esquinas das horas

Tempo que não é mais

Tempo sós

 

Quem me dera um momento

Que se ajuste aos meus pensamentos

Nesse tempo que de nada faz jus que se diga

Além de que ele faz-se

O grande, misterioso, essencial da vida.

 

1º lugar em POESIA no 2º Concurso Regional de Poesias, Contos e Crônicas Oscar Bertholdo.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Um brinde à solidão

Olá, conto sobre empoderamento feminino? Tenho sim! Ele é um dos contos da coletânea ESCRITOS PREMIADOS que mais admiro.
                 
            E ela permanecera sentada no sofá, respirando profundamente, brindando com a solidão.
            Cedo, antes do despertar do sol, Sofia, entre tantas escolhas, optou por si mesma. Naquela manhã tocou sua pele, marcada, com um afeto desconhecido, ímpar. Viu seus olhos no espelho e notou: eram castanhos, da cor de seus cabelos, da cor que vira que eram em sua infância. Ah, aquele Natal em que ganhara de sua mãe uma boneca, a qual nomeara de princesa Victória, que morava em um imenso castelo e que era cortejada por um príncipe, que a defenderia de todos os males, que daria a vida por um simples beijo, que, e eram tantos os quês, que alimentaram a sua pureza infantil.
            O sol entrava pela janela do quarto, devagar, aquecendo aquele ambiente tão frio, apertado demais para dois, assustadoramente imenso para um. Ainda contemplando sua imagem refletida, aos poucos o corpo de um ser humano ia tomando forma. O contorno feminino, por tantas vezes negligenciado, ia surgindo como uma imagem sacra. Braços, pernas, ombros, face. Sofia respirou profundamente e admirou o movimento de seu diafragma. Soltou o ar, suavemente, devagar como uma pluma solta a brisa de verão.
            Linha após linha ia delineando-se feições jovens, mas marcadas pelo chicote impiedoso do convívio com a loucura. Agora, já não era o rosto de outrora, e esse não voltaria mais, mas o olhar de ontem, perdido, que vinha se manifestando entre turbilhões de pensamentos confusos e insistentes. A cada segundo deleitava-se mais e mais com as ideias que emanavam de sua razão. Nesse momento era necessário ouvir a voz da tida consciência. Por que se calara antes? Por que nunca dominara as emoções que transbordavam seu ser? Por que Sofia não se ouvira antes…
             Pensamentos que tomavam conta de sua mente e arrepiavam sua pele. Queimava-a por dentro e partia seu coração. Viu seus olhos no espelho novamente e notou: eram castanhos, da cor de seus cabelos, da cor que vira que eram em sua infância. Já podia abri-los, já podia observar mais alto, erguer sua cabeça, olhar para um céu onde tudo é bom. Onde o amor prevalece e a vida possui sentido.
            E era isso que faria. Abrir as asas e voar. Ser outra vez ela mesma, resgatar a beleza de sua alma e não temer o próximo. Nem o próximo que divide o mesmo espaço que deveria se chamar 'lar'. Mas nunca foi um lar, nunca seria. Não dessa forma.
            Quantos anos de cativeiro nos braços da insanidade em uma relação doentia. Depois de muito observar, a completude de seu ser fez-se reintegrada. Unidos os pedaços dela espalhados pela casa, prometeu a si mesma que não choraria mais. Faria aquilo que precisava ser feito, que desejava como um sonho bom.
            E ele entrou pela porta da frente da casa, encontrando-a sentada no sofá. Ele foi seu abismo e sua salvação, seu alimento e sua fome. Teve fome de amor e alimentou-se do gosto amargo da insensatez. Ele foi um refúgio e um delator, uma coroa de espinhos num reino de sofrimento. Nos braços dele encontrou a guerra e perdeu a paz. Ele foi um amigo traidor. A cada toque ríspido em seu corpo, ele tentou mostrar que o amor era dor. E ela o olhava mais e mais, sentada no sofá. Ele foi o atalho que a levou para a escuridão, a ferida mal cicatrizada, o beijo que queimava sua boca e destruía seu coração. Ele era, mas não seria mais.
            Naquele momento, diferente de todos os outros, Sofia sentiu que existia, e nenhuma lágrima caiu do rosto dela. Ele entendeu. Ele não a reconheceu. Ele foi embora.
            E ela permanecera sentada no sofá, respirando profundamente, brindando com a solidão.

   1º Lugar - 2015 - Concurso Regional de Contos, Crônicas e Poesias Oscar Bertholdo

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Borboletas Azuis

Esta é uma história sobre esperança e cura. Sim, a narração de momentos difíceis pelos olhos mais puros possíveis. Boa leitura!

Borboletas Azuis

          Depois de tanto tempo, de tantos dias e noites escrevendo cada página de meu livro da existência, depois de tantas calmarias e tempestades, pego-me admirando o voar das borboletas azuis. Tão pequenas, tão simples e tão frágeis, elas voam num a mesma dança leve, de harmonia e lembranças.
          Estendo minha mão cansada na esperança que algum daqueles seres voadores não tenha medo do novo e agracie-me com a confiança necessária para fazer de meus dedos um cais... Mas o tempo passa...
          Eu era tão pequena quando lembro que entrei na sala onde meus pais conversavam. Daqui a cinco meses seria meu aniversário e, mesmo estando longe, contava os dias para a minha tão esperada festinha de seis anos. Minha mãe, vendo eu entusiasmo, já havia comprado os balões e painéis com fadas para as paredes. Eu já fizera a lista de convidados: Sofia, Carol, Brenda, Bruna, Paulo e Luís (meus vizinhos), a professora Fabiana, meus colegas, meus avós, minhas tias, pai e mãe (eu os incluíra também na lista). Enfim, estava muito feliz naquela manhã de segunda-feira e vi que os dois conversavam num tom de voz bem baixo.
          Logo de início estranhei um pouco que papai não havia ido trabalhar e mamãe, quando fui me aproximando para dar-lhe um abraço forte, estava com os olhos vermelhos. Ela logo ergueu-se do sofá e sorriu, passando os dedos sob suas lágrimas, a fim de que eu não percebesse que existiram.
Ela, naquela manhã, abraçou-me mais forte que o habitual, por mais tempo também. Papai nos abraçou igualmente. Que estranho, será que chegou meu aniversário e eu nem percebera? Dormi tanto tempo assim? Quantas indagações em pouco tempo.
          Mamãe aproximou seus olhos de meu olhar e disse, com sua voz baixa:
         - Querida, vamos fazer uma viagem. Mas não se preocupe em pouco tempo voltaremos para casa...
          -Adoro viajar. Aonde vamos?
          -Para a capital.
       -Vou arruma as malas. – Disse e corri para meu quarto, pois todos os anos realmente conhecíamos um lugar do país diferente, e ficávamos lá por uma semana.
       Geralmente quando nos organizávamos para passear meus pais sorriam bastante, faziam brincadeiras e passavam todos os detalhes possíveis do que veríamos lá. Desta vez o silêncio era cortante. Não lembro de muitos detalhes, sei que, em pouco tempo, estávamos no carro indo até a capital.
         A viagem foi muito diferente das demais. Entramos um prédio branco, muito grande, e logo fiquei com minha mãe numa sala, em companhia de muitas outras pessoas e suas caras tristes. Eu não sabia o que pedir, só queria um abraço da mamãe, e ela me segurou todo o tempo em seus braços. Em pouco tempo, uma moça vestida de branco, falou baixinho com meu pai, que estava no balcão, e nos levou até um quarto.
          Eu deitei numa cama muito confortável, com lençóis azuis e uma parede branca logo a minha frente com um adesivo de crianças e animais interagindo felizes. Na janela, uma grande árvore surgia, repleta de botões prontos para florirem.
         Meus pais ficaram um em cada lado da cama. Papai acariciava minha mão e mamãe alisava meus longos cabelos. Em pouco tempo ela começou a me explicar.
        -Filha, essa é uma viagem diferente. Nós não vamos apenas conhecer um lugar novo, nós estamos participando de um teste. Bem, é como se fosse um trabalhinho que o Papai do céu pediu para nós fazermos. A professora da escolinha não pede alguns trabalhinhos para que você faça?
          -Pede – Balancei a cabeça positivamente.
         -Então, às vezes Jesus também pede que nós façamos alguns trabalhos, e se Ele nos pediu, é porque conseguiremos fazer direitinho. Filha, você está com um probleminha aqui - ela passou os dedos levemente sob as minhas costas – mas vamos conseguir vencer. Quando Deus achar necessário, nós iremos para casa.
         - A forma com que minha mãe pronunciou cada palavra me transmitiu tanta calma que não deixei de acreditar um só minuto que tudo daria certo.
          A partir dessa conversa os dias foram passando e o tratamento acontecendo. A primeira semana foi monótona. As moças de branco me conduziam para fazer exames clínicos, eu retornava para meu quarto. Todas as pessoas me tratavam muito bem, e uma vez por dia eu podia ir para uma sala com outras crianças, cada uma com seu soro e suas esperanças. Lembro que brincávamos com frequência que o suporte do soro era nosso cetro, e todos nós morávamos num castelo e pertencíamos à realeza, e o hospital era nosso reino encantado.
          Outra lembrança feliz que tenho dessa época é o amanhecer. Quando o sol começava a surgir no horizonte, várias borboletas enfeitavam os galhos da árvore próxima à janela, e ficavam dançando por um tempo. Eram várias cores formando uma aquarela de vida diante de meus olhos: amarelas, vermelhas, pretas e azuis. Essas últimas eram minhas favoritas, tão brilhantes e singelas que despertavam minha maior admiração. Em alguns momentos estendia meu braço, cheio de agulhas e canos, na esperança de ver mais de perto a vida. Mas não fazia mais que isso. Certos dias estava me sentido muito mal, mas aquele momento auxiliava para me consolar.
          Durante o tratamento não entendia a gravidade de minha doença, e agradeço a meus pais e familiares por não terem me feito enxergar essa face dos acontecimentos. Porém sempre fiquei pensativa sobre a razão de algumas crianças serem carecas, mas não tinha coragem de perguntar. Isso era como se fosse um mistério que eu não queria desvendar.
            Um dia recebi em meu quarto o cabeleireiro da família. Quanto tempo! Ele era muito querido, sempre entregava balas após o corte de cabelo. Minha mãe não falou uma palavra, mas logo senti que eu me tornaria mais uma daquelas crianças diferentes da sala de brinquedos, e comecei a chorar. Minha mãe então falou:
          -Fique calma, estou aqui... Isso é necessário. Depois que sairmos do hospital pode ter certeza que seu cabelo crescerá bem mais bonito que está...
          Aquele momento foi o mais forte que lembro. Meus pais fizeram um árduo trabalho para que eu pudesse ver essa situação de forma positiva. Três vezes por semana papai trazia lenços novos para que eu estivesse sempre linda. E eu adorava cada um que ele trazia.
          E o tempo continuou passando. Lembro que adorava olhar para a janela, em especial a planta florida e suas visitantes. O voo delas me tirava da inércia de estar numa cama a tanto tempo. Sobre meus anjos, ninguém nunca chorou na minha frente, mas eu sentia que certos dias meus pais estavam mais cansados que outros.
         Uma tarde, quinta-feira, o médico e as moças de branco entraram em meu quarto e de repente apaguei. Lembro que acordei no mesmo lugar em que adormecera. Quando abri os olhos todos estavam ao meu redor, com balões e presentes. Era meu aniversário novamente? Provavelmente não, já havia o comemorado no hospital. Mamãe colocou todos os balões e adesivos que havíamos comprado na sala de brincadeira e festejei passando a tarde com meus amigos do castelo.
         - Parabéns, filha, você conseguiu vencer!
         Quase nem acreditei: eu conseguira vencer, estava curada e finalmente podia ir para casa. Nesse dia todos choramos juntos, pois o trabalho que Deus havia nos pedido para realizarmos fora concluído. Eu não via a hora de voltar para minha casa, minha escola, minha vida.
         Mamãe e papai arrumaram as malas com toda felicidade do mundo e, antes de sair do quarto, olhei pela última vez para a árvore e as borboletas. Timidamente acenei, dizendo adeus para aquelas que foram minhas companheiras em toda caminhada.
          Tanto tempo... Tantos dias e noites escrevendo cada página de meu livro da existência... Tantas calmarias e tempestades... Mesmo depois de tudo, um sentimento não mudou: continuo admirando o voar das borboletas azuis. Mas não mais daquela janela do hospital, mas nas flores do meu jardim.
          Hoje ainda sinto o mesmo apreço que sentia quando menina ao olhar a dança desses bichinhos tão delicados. A doença, o hospital, as moças de branco, o médico, as crianças, minha festa de aniversário de seis anos, meus pais, meus colegas, todos eles viraram borboletas azuis, que preencheram a minha vida e precisaram voar.
          Nesse dia tão lindo de primavera recebo meus netos em meu jardim, fazendo questão de mostrar todas as flores, seus perfumes e suas borboletas, para que eles nunca se esqueçam de que a vida é mais forte que tudo; que mesmo depois do inverno tudo renasce mais forte e bonito.
              …...
           Suspiro... Uma voz de criança chama a avó para que entre na casa. Lentamente, Bárbara ergue-se e, passo a passo, segue para ver o que se trata. Em meio ao sol de primavera, trânsito movimentado, ruídos de anúncios publicitários, vozes de conversas pelas calçadas, uma borboleta azul pousa, delicadamente, despretensiosamente, em seu ombro.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Leituras (é o título do conto)


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                - Não vou passar um tempo na casa da minha avó. Ficar ao lado daquela velha, me poupe. Me poupe, mãe.
            -É só por esta tarde, Ana. A cuidadora precisa se ausentar. Faça isso ou corto sua mesada toda de maio.
            -Afff, né. Uma tarde dos meus quatorze anos jogada no lixo.
            A viagem até a casa da senhorinha foi num clima desagradável. Mãe e filha não trocaram uma palavra sequer. Rapidamente a adolescente foi deixada no portão da velha casa de madeira e ouviu o som do motor do carro ficar rapidamente distante, até dissipar-se no ar.
            Saco, pensava ela. Preferia ficar em casa gravando seus vídeos para as redes sociais, com seus relatos da escola, baladinhas e amigos.
            Bateu na porta e logo esta foi aberta por sua avó Lúcia.
            -Entre, minha neta.
            -Obrigada.
            -A vovó estava revirando alguns álbuns de fotografia antigos. Você deve pensar que é bem coisa de velho.
            A vontade era responder que sim, e que ela a deixasse ficar em seu celular passando as cinco longas horas em paz. Mas Ana disse:
            -Não é não.
            Em silêncio, a senhora folhava devagar as páginas do poeirento álbum. Ana podia ver fragmentos de pó pelo ar iluminado por uma fraca luz do teto. Mania de casas antigas serem escuras.
            Dentro da caixa mais dois compilados de imagens repousavam. A adolescente resolveu pegar um e começou a observar. Tantas imagens estranhas, muitas em preto e branco, outras em cores e definições muito ultrapassadas.
            -Sente-se aqui ao meu lado, Aninha. Venha olhar comigo.
            Um tanto desconfortável, mas ao mesmo tempo curiosa, ela sentou próxima a avó.
            -Querida, atrás de cada fotografia tem o registro escrito de quem estão nelas, onde e em que momento. É só virar e ler.
            Ana ficou olhando para o rosto de Lúcia e não fez nada além de dar um sorriso. “Simples, por que essa chata não faz isso? O que ela quer?” Pensava...
            Quem escreveu foi sua mãe, quando tinha um pouco mais que a sua idade. Eu falei pra ela. Eu não sei ler.
            “Minha avó não sabe ler? Todos sabem ler? E então, pra que uma estante de livros na sala?” Com os olhos úmidos, a senhorinha olhou nos olhos da neta e disse:
            -Eu só trabalhei, desde pequena. Trabalhei muito e muito para que sua mãe conseguisse voar mais alto que eu no interior. Eu sempre quis aprender a ler, mas hoje tenho até vergonha de revelar isso. Só sei escrever meu nome. Vou contar um segredo: algumas noites abro um desses livros e fico passando meus dedos sobre as letras, só para imaginar todos os universos de cada linha. Não consigo nem pegar um ônibus, e desde que me mudei para a cidade, dependo de alguém pra me guiar. Olha esta foto: é sua mãe bebê nos braços... Não lembro mais quem era ele...
            -Vó – falou a neta virando a fotografia – aqui diz que é o tio Renato no pátio da casa de Antonela.
            -Antonela! A vizinha da tua bisavó. Verdade.
            -Esse bebê também é minha mãe? Que engraçada, toda suja de terra.
            -Sim, é ela. Mas eu não lembro onde...
            -Deixa eu ler aqui... Na praça da cidade. Que diferente!
            -Sim, muito. Aquelas plantas nem existem mais.
            ....
            E aquela tarde foi o período que passou mais rápido dos últimos anos. Neta e avó iluminaram o ambiente enquanto ambas liam, cada uma a sua maneira, o passado, o presente e um futuro de mais e mais luz.
            Seis da tarde, ou dezoito horas, uma buzina toca em frente a velha casa de madeira. Era a mãe para buscar Ana.
            Mas, antes de ir embora, a avó segurou a mão de sua neta e mostrou-lhe um maço de folhas amareladas.
            -Essas são as cartas de amor que seu avô escrevia para mim. Todas as quartas-feiras, Beatriz, a moça que fica aqui comigo, lê uma para mim. Eu não aguento mais a dor de só reconhecer um papel riscado em cada página. Leve-as e dê o destino que quiser.
            -Vó..Olhe para mim...Todas as quartas-feiras, como hoje, eu vou vir aqui e vou lhe ensinar a ler.
            Ambas se abraçaram forte e a partir daquele momento, todas as quartas-feiras, ambas aprendem e ensinam, uma a outra, a lerem. Uma as palavras, frases e parágrafos. Outra as pessoas e a própria vida.