sábado, 24 de abril de 2021

Conto terror: Você ainda não sabe

 Este conto foi narrado por Sérgio Pires, para ser transmitido no programa Creepy Metal Show, na Rádio Putzgrila: agradeço de coração pelo apoio!


O link para ouvir a narração é



        Todas as madrugadas, na mesma hora, Rita acordava com sede. Era incrível, 3h30 em ponto o sonho terminava, um cachorro começava a latir, um barulho grande era ouvido pela casa e lá estava a mulher, desperta.
        E a sede era tanta que não tinha como procrastinar. Era levantar, descer o lance de escadas, passar pela sala, chegar na cozinha e beber um copo de água. Depois a noite prosseguia, os sons cessavam, os cachorros dormiam e os sonhos voltavam. Durante o café da manhã, eram sempre as mesmas confissões:
        - Amor, mais uma vez acordei às 3h30 com sede – ela desabafava com o marido.
        - De novo!
        - Sim.
        - Que saco... Amor, eu vou trabalhar hoje até mais tarde. Temos que terminar a instalação da rede elétrica do novo supermercado que vai abrir segunda-feira. Mas qualquer coisa me ligue.
        - Tá bom, vou ficar vendo séries. Te espero acordada.
        - Acho que vai levar a madrugada toda. Temos muito o que fazer ainda. Estamos atrasados e o contrato precisa ser cumprido.
        - Seu chefe precisa contratar mais funcionários.
        - Mão fechada como ele é, nunca vai!
        - Te amo. Se cuida.
        - Pode deixar. Também te amo.
        Rita gastou sua última sexta-feira das férias do trabalho organizando a casa, tirando o pó dos móveis e lavando o chão. Não era o programa mais divertido, mas de qualquer forma os dias anteriores foram bem aproveitados com passeios pela cidade e visitas a amigas e parentes.
        A noite chegou. Depois de um banho relaxante, e de vestir sua camisola, Rita deitou-se na cama e colocou uma série para assistir. Ela gostava de ver romances adolescentes, por mais que sua vida adulta já tivesse começado há alguns anos. As horas passaram e o sono chegou de mansinho. A televisão desligou sozinha depois de um tempo, e ela adormecera por cima das cobertas.
       Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou. Poucos segundos depois, os cachorros latiram e batidas começam a ser ouvidas na porta de entrada.
        - Não acredito que o Fábio fez de propósito chegar neste horário. Ele vai ver só!
Rita desceu as escadas rapidamente e abriu a porta. Não podia ser outra pessoa, pois ela teria que ter aberto o portão de entrada, ou pulado a alta cerca eletrificada que protegia a casa. Ela não viu ninguém.
        - Amor, onde você está?
        ...
        - Amor, que brincadeira sem graça! Cadê você.
        Um barulho forte veio da cozinha, os cães latiam com raiva. Mas quase todos os dias esses sons surgiam na madrugada, nem valia o esforço de se preocupar. Agora Fábio enchendo o saco, isso sim não poderia ser ignorado.
        - Quer saber, cansei, vou dormir. Você tem chave, entre quando cansar dessa palhaçada.
        A mulher trancou a porta, voltou para o quarto e deitou-se na cama. O celular começou a tocar. Era o marido:
        - Alô, Rita?
        - Amor, para de brincadeira, entre logo!
        - Linda, como assim? Eu ainda estou no trabalho. Só queria saber se estava acordada neste horário. Eu nem ia deixar chamar muito, mas como atendeu, tenho certeza que, para variar, acordou na hora da água – falou soltando uma tímida risada.
        - Por hoje chega né. Me deixa dormir. Boa noite.
        - Boa noite.
        Um forte barulho de passos pesados se aproximavam pela escadaria, subindo até o quarto onde ela estava. Tudo ficou escuro...
        ...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou. Fábio estava ao seu lado, e ela sentia muita sede.
        Sem fazer barulho, desceu as escadas e foi até a cozinha, ouvindo os cachorros uivando no terreno da vizinha. A mulher abriu o balcão aéreo, pegou um copo, ficou de frente à torneira, encheu-o de água e bebeu. Ao se virar, viu uma moça com o rosto esfumaçado que a imitava. Ela estava vestida com uma camisola amarela, com o tórax e abdome repletos de perfurações, jorrando sangue pelos ferimentos o qual escorria pelas pernas e empoçava no chão.
        Rita queria gritar, mas ficou completamente paralisada. Ela tentou piscar, tentando descobrir se era um truque da mente, mas a figura assustadora permanecia estática diante dela, repetindo com uma voz baixa, lamentosa e pesada:
        - Você ainda não sabe...
        ...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou. Fábio estava ao seu lado, e ela sentia muita sede. E os dias, semanas e meses seguiam sempre iguais, resumidos a madrugadas.
        - Você ainda não sabe...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou. Fábio estava ao seu lado, e ela descia as escadas, pegava o copo, enchia de água, bebia...
        - Você ainda não sabe...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou. A imagem de Fábio estava cada dia mais apagada, como se o tempo o diluísse entre os móveis do quarto.   Descer as escadas doía, a água não matava mais a sede...
        - Você ainda não sabe...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava por uma floresta escura interrompeu-se e Rita acordou, e ao passar pelo espelho se viu com a camisola amarela. Descendo as escadas, sentido muita dor no corpo. Tocava-se. Tinha medo de ligar a luz. Sua roupa estava molhada. Na cozinha, o copo, a água. Mas tudo estava bagunçado, fora de lugar, cheirando a podridão...
        - Você ainda não sabe...
        Às 3h30 o sonho no qual caminhava... E lá estava Rita, desperta. Desceu as escadas, chegou na cozinha, ligou a luz e caída no chão viu-se sem vida, sangrando no piso enquanto uma sombra escura saltava pela janela. Uma sombra que cheirava a ódio e maldade. O corpo doía mais e mais, e as feições da presença oculta se tornaram nítidas. Rita estava diante de si mesma. O tempo todo. A aparição abriu um sorriso misterioso no rosto e esticou os braços para frente, chamando a mulher com as mãos:
        - Agora, finalmente, você sabe...

domingo, 14 de março de 2021

Boitatá Moderno

 Aproveite esta releitura da lenda do Boitatá. Você pode assistir a narração feita por Sérgio Pires, da rádio Putzgrila, no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=HOddnjTmkaY

 

     Jaqueline estava ansiosa para, finalmente, encontrar o rapaz com o qual vinha conversando durante semanas, pela rede social. A chuva intensa dos últimos dias, que alagou inúmeras casas e causara danos em diversos estabelecimentos comerciais, finalmente parecia ter dado uma trégua, apesar da ausência do sol. Desde que a moça chegou à capital, ainda não tinha feito muitos amigos, mas sentia que havia encontrado um amor, uma razão para se sentir viva, antes mesmo de ter com quem confidenciar isso.     Quem diria que uma solicitação de amizade faria o coração bater mais forte. No trabalho, escritório da sede administrativa da madeireira Atlanta, o telefone tocou. Era Micael.
     - Alô!
     - Bom dia minha musa dos olhos brilhantes.
     - Bom dia Mica.
     - Estou te atrapalhando? Você está falando tão baixo...
     - Estou escondida no depósito aqui do escritório – Jaque deu uma risadinha tímida – mas pode falar sim. Estava com saudades de ouvir sua voz.
     - E olha que nos falamos ontem à noite, luz da minha vida.
      - Meu amor!
     - Vamos nos encontrar finalmente esta noite?
     - Claro, não posso mais esperar para te ver pessoalmente.
     - Eu sugiro aquele barzinho que tem no final da rua Hermes, no seu bairro mesmo. Acho o lugar bacana.
     - Ele é um pouco pacato, não tem música ao vivo, nem muitos frequentadores.
     - Mas assim é melhor, podemos conversar com mais tranquilidade. Não concorda?
     - Concordo meu amor. Esta noite às oito horas?
     - Combinado, te encontro lá.
     Jaqueline saiu de fininho de onde estava escondida, para que ninguém descobrisse que havia quebrado a regra de não utilizar o celular durante o expediente. Nunca os minutos passaram tão devagar quanto naquele dia, apesar da demanda por madeira estar alta. Quando finalmente pode ir para casa, apressou-se em tomar banho, colocar sua melhor roupa, maquiar-se e sair para seu tão esperado encontro.
     O coração pulava forte no peito, as pernas tremiam e as mãos suavam. Somente duas mesas estavam ocupadas: uma na parte de dentro do bar, por um casal de meia idade que pareciam tentar engolir seu cansado relacionamento com cervejas, e outra, na calçada, por um rapaz de costas para a rua, vestindo calça jeans preta e camiseta social verde. Seria ele? Será? Era sim.
     Quando Jaqueline estava a poucos passos de Mica, ele virou-se com um sorriso largo:
     - Seus olhos realmente são muito brilhantes.
     - Obrigada.
     - Por favor, sente-se.
    Jaque se sentou bem em frente à Mica, e ambos ficaram se olhando sem dizer nenhuma palavra. A rua estava silenciosa, a noite escura, como se prometesse mais chuva pela frente. Mica a olhava nos olhos, como se quisesse ler sua alma. Após o garçom deixar na mesa a garrafa de cerveja e dois copos, o rapaz quebrou o silêncio:
     - Podemos pedir algo para comer?
     - Sinto muito, estamos sem nada para oferecer além de bebidas.
     O garçom de aspecto cansado voltou para dentro do bar, continuar a limpeza do piso, que ainda estava cheio de lama da tempestade anterior. O casal que ocupava a outra mesa estava indo embora. Só sobrava no lugar Jaqueline e Micael.
     - Não há nada mais sincero que o olhar. Ele não mente, não trai. Foi a primeira coisa que reparei em suas fotografias: seus lindos olhos castanhos.
     - Obrigada.
     - Você está com fome?
     - Um pouco... – Na verdade, por conta da ansiedade, Jaqueline não comera nada o dia inteiro, e estava se sentindo muito fraca.
     - Seu olhar é minha fonte de energia.
     - Não seja exagerado, mas obrigada pelos elogios.
     - É verdade, eu me alimentaria dos seus olhos. Seu olhar cheio de luz, de vida.
     Jaqueline sentia seu corpo amolecer, uma forte sensação de sonolência que não lembrava ter tido após ter tomado cerveja na vida. A cabeça pesava cada vez mais e uma inércia a paralisava.
     Micael levantou da cadeira e aproximou-se dela, que já não conseguia falar ou fazer nenhum movimento. Lentamente ele tirou do bolso um canivete, e cirurgicamente arrancou os olhos da moça, colocando-os num pequeno saco plástico, junto a outros de diferentes datas.
     - Vou guardar com muito carinho essa luz que me alimenta, não se preocupe.
     Sem ser notado pelo garçom, Micael foi desaparecendo, serpenteando pela rua, surgindo como um vulto de luz por debaixo dos postes solitários, sumindo na escuridão.

segunda-feira, 8 de março de 2021

As próximas gerações - dia da mulher

 Este conto diz mais no vácuo entre passado e presente do que na história redigida. Não precisamos repetir o que sofremos, pois é a única forma de se libertar às vezes.



    Quando Viviane nasceu, a família não comemorou muito. Sim, fora uma emoção o mistério da vida acontecendo diante dos olhos do marido, mãe, avó e a parteira. Mas os sorrisos encolheram-se um pouco ao ouvirem a frase:

    - É uma menina.
    Os parentes vinham visitar o casal, com mimos, expectativas e pitacos:
    - Não acredito! Não conseguiu fazer um varão! – exclamava o compadre.
    - E quem vai levar o sobrenome da família adiante? – questionava o avô.
    - Quero ver quando casar, a despesa que vocês vão ter... – comentava a comadre.
    - Vai ter que amarrar os gaviões – ria a sogra.
    E enquanto a menina crescia, a família aumentava. Os varões chegavam: José, Fabrício, Ernesto e Joaquim. Depois deste último, o útero da matriarca teve que ser retirado. Tornara-se, para seus pares, um pouco menos mulher e, para aliviar sua tristeza, cuspia palavras amargas na filha.
    E assim Viviane foi crescendo, e a cada dia aprendendo mais sobre lavar, secar, guardar e cuidar dos irmãos. Estudar? Para quê? Um casamento com um pretendente arranjado era mais que o suficiente para exercer seu papel na sociedade.
    Um dia o casamento lhe bateu a porta, como uma tempestade de verão repentina. Viviane se viu diante da reprise de uma vida que ainda não a pertencia, mas que parecia seu destino. Sabia que sua voz não era audível aos ouvidos da família, que seus sonhos eram guardados com as roupas e que varria para debaixo do tapete suas discordâncias e amarguras. Bom seria ser José, Fabrício, Ernesto e Joaquim, orgulho do pai, participantes dos negócios, que liam e faziam contas e comungavam de risadas folgadas após as refeições.
    Bem que ela quis fugir, enquanto o vestido branco lhe era apresentado, o salão da comunidade decorado e os detalhes organizados. Viviane ficava se imaginando lendo os poucos livros empoeirados na estante, trabalhando como os irmãos, apaixonando-se. Perdida entre pensamentos, quando se deu por conta estava no altar, diante de um homem que mal conhecia para concretizar um destino que não queria. Na hora que o padre perguntou se ela aceitava casar-se com Antônio Ridegatto, ela respondeu...
    - Mãe, que triste a vida da vovó. Ainda que os tempos mudaram. E eles foram felizes?
    - Ela foi uma ótima mãe. Ele foi um bom pai. Mas pouco se falavam e, como você se lembra, o vovô terminou a vida dormindo no quartinho de hóspedes.
    - Eu não me lembro deles conversando muito quando íamos lá nos domingos...
    - Pois é, então se você não quiser que eu escolha seu marido, trate de escolher bem seu namorado.
    - Ai mãe, ninguém mais faz isso.
    E numa risada uníssona, envolvidas num abraço, ambas agradeceram aos esforços de todas as avós, que a passos curtos e perseverantes, construíram os caminhos para as mulheres das próximas gerações.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

18+ A terapia narrada

  A Radio Putzgrila (recomendo muito!) Fez a narração do conto A TERAPIA. Acessem o link abaixo e confiram:



18+ A TERAPIA

 



    - Essa terapia me fará um psicólogo conhecido no mundo todo – suspirava Allan, encantado ao ver as pacientes, sentadas em círculo, na sua ampla sala de estar. Uma mistura de adrenalina e odores tornava, para ele, o espaço denso e acolhedor.

          - Acho que eu sou a única pessoa neste mundo que ainda gosta de músicas antigas. Doutor, o senhor pode colocar a canção “Dream a Little Dream of Me”? Adoro a voz de Louis Armstrong.- Era a canção que ela estava ouvindo na padaria, onde tomava seu café da manhã, antes de aceitar a proposta do psicólogo.

          Allan ajeitou seu paletó (“preciso comprar um que se ajuste melhor ao meu corpo, este está largo”) e colocou na vitrola o velho disco de vinil para rodar. Depois, voltou a aquecer o bule com café no fogão improvisado (“daqui há alguns anos, estarei num lugar bem mais confortável que aqui”).

          - Eu não gosto dessas músicas velhas, eu prefiro pop music, como Madonna e Lady Gaga – retrucou Laura, enquanto segurava uma lixa, exibindo suas unhas vermelhas com o esmalte corroído pela rotina de lavar pratos na lanchonete. Em outros dias, no vespertino, estaria nas ruas fazendo programas para completar o orçamento, mas na semana anterior foi convencida que a terapia era de extrema necessidade para ela.  

– Me sinto na casa daqueles clientes velhos e carentes, fedendo a mofo e tocando canções esquecidas – continuou a jovem.

          - Eu desprezo totalmente sua profissão. Você é bonita e parece ser inteligente, deveria fazer algo mais decente do que, Deus me perdoe, vender seu corpo. – Lívia tinha pavor só de imaginar que a moça a sua frente praticava tamanhas obscenidades, e rezava em pensamento todas as vezes em que Laura relatava detalhes mais íntimos. De tanto apertar o terço em suas mãos, seus dedos já estavam marcados pelas bolinhas de plástico. Talvez Allan estivesse certo quando, na saída da igreja, a convenceu a participar do tratamento.

          - Continuo achando que... A presença de Nataly... Não é adequada. Quantos anos... Você tem... Querida? – perguntou Ana, a jovem estudante de fotografia que estava sentada entre a menina e Laura.

          - Tenho doze.

          - O que você... Está desenhando?

          - Meu urso – exibindo seu caderno aberto para Ana, mostrou um esboço do que seria realmente o brinquedo referido.

          - Vai ficar muito... Lindo quando... Terminar.

          - Obrigada, mas acho que vai demorar. Meus olhos doem.

          As duas estudantes estavam na parada de ônibus quando viram que a vida poderia ser mais leve, e ganhar um novo sentido através da terapia do recém-formado.

          - Boa tarde meninas, vamos começar nossa sessão?

          Allan sentou-se na roda. As pacientes permaneceram imóveis.

          - Vejo que hoje vocês estão bem mais entrosadas que ontem. Fico feliz com isso. Neste segundo encontro quero ouvir mais sobre as dores de cada uma. Antes disso, alguém aceita café?

          As diversas vozes femininas pelo cômodo ecoaram um pouco mais altas que o som da música que tocava, numa negativa única. Mesmo assim, sabendo que Nataly adorava a bebida, foi até a jovem e a vez beber uns goles.

          - Cuidado para não se sujar – advertiu o psicólogo, passando o dedo no canto inferior dos lábios da estudante.

          - Estava muito bom. Agradeço.

          - Sabia que iria gostar. Estão gostando desta canção que está rodando?

          - Sim, psicólogo. Eu adoro a atmosfera que ela cria na sala...

          - Certo, Amélia. A propósito, você, assim como as demais, está muito bonita hoje.

          - Obrigada.

          - Mas eu teria escolhido um batom mais chamativo, uma cor mais quente quem sabe. Acho que este tom escuro não ficou tão bem. Permita-me.

          O jovem colocou a xícara de café na mesinha ao lado, e dirigindo-se até Laura pegou um batom vermelho de sua bolsa, passando com cuidado nos lábios de Amélia, sentindo a textura da pele e vendo a transformação ocorrer.

          - Acho que fiquei bem mais bonita agora. Obrigada, doutor.

          - De nada. Bom, Lívia, vejo que você está quieta hoje.

          - Estou em sintonia com meu Deus.

          - Então quem sabe você pode ser a primeira. Onde dói?

          - Viver dói. Nossos sonhos são espedaçados com a facilidade que arrancamos um fio de cabelo. Eu sinto dores nas Cinco Santas Chagas de Cristo. Sinto os meus pulsos e pés como se estivessem sendo perfurados, e meu peito rasgado. Na verdade não consigo mexer meus pés.

          - Lívia, quem sabe o seu fanatismo religioso está fazendo com que sinta isso.

          - Ela é louquinha. Falta é sexo, dos bons – interrompeu Laura, que pousava as mãos em seus mamilos sob a blusa erguida, justinha, que os cobriam. – A propósito, só eu que estou sentindo uma sensação gelada no abdome?

          - Minha Nossa Senhora – a cristã fazia o sinal da cruz e apertava mais e mais o terço.

          - Garotas, por favor. Vamos prosseguir. Nataly, onde é sua dor?

          - Eu sinto dificuldades para respirar... Sinto meus pulmões rasgando... Cada vez que puxo o ar. – E enquanto se esforçava para entoar as palavras, observava pela grande janela, como um pássaro planejando novos vôos.

          - Ontem você disse que ficou muito assustada quando viu as imagens que retratavam a punição nórdica da Águia de Sangue. Será que teria algo a ver?

          - Não me faça... Lembrar delas. Quanta dor essa gente... Deve ter sentido ao ter suas costelas... Separadas da coluna vertebral... E seus pulmões estendidos... Para fora do corpo? Quanta dor! – A jovem estudante permanecia estática. Allan aproximou-se dela e apertou seus ombros pelas costas. – Você vai ficar bem. Vai alcançar as estrelas com sua arte.

          - Obrigada... Doutor...

          - E você, Amélia, o que dói? – O psicólogo percebeu que as marcas roxas pelo seu próprio corpo incomodavam, mas a prioridade era as pacientes. Ele ficaria para depois.

          - Eu não sei, parece que dancei por horas a fio. Minhas pernas latejam e meu pescoço parece que vai deixar minha cabeça cair de tanto que ela pesa. Mas minha maior dor é na altura das pregas vocais.

          - Nos últimos dias você discutiu com alguém? Falou o que não devia?

          - Não lembro, doutor. Me sinto tão deslocada neste mundo. Parece que não me encaixo em grupo nenhum, que nasci na década errada. Pouco falo.

          - Estranho.. Laura, sua vez.

          - Eu sinto dor na minha barriga, como se eu tivesse passado por uma cesariana sem anestesia.

          - Você já teve filhos?

          - Não. Estou grávida. Eu ainda não decidi se quero ou não continuar com a gravidez. Como vou sustentar? Eu nunca deveria ter aceitado aquele programa sem camisinha. Mas eu não tive escolha: ou isso ou ser jogada na rua.

          - Eu repito, você deveria fazer outra coisa da vida.

          - Lívia, você já teve sua vez de falar. Continue rezando. Ou melhor, me dá este terço.

          Allan imaginou Laura levantando da cadeira e, tomando o objeto em mão, enfiando-o em sua boca, deixando apenas Cristo pendurado pelo lado de fora, balançando-o com a língua. Mas antes que isso pudesse acontecer, foi até Lívia e certificou-se que o terço estava firme entre os dedos dela.

          - Então Ana, quer falar o que dói?

          A menina encolhida sob a cadeira, abraçando seu caderno contra o peito, nada dizia.

          - Pode falar, menininha. – O jovem ergueu-se e ajeitou o laço que enfeitava os cabelos molhados da pequena.

          - Eu sinto dor nos olhos e entre as pernas.

          - Acho que você está desenhando demais.

          - Pode ser.

          - Minha querida, é normal sentir dor quando a menstruação chega. Você está menstruada? – perguntou Amélia.

          - Estou sangrando.

          - Então deve ser isso.

          A tarde terminara e a noite reinava sobre a cidade. Milhões de estrelas se exibiam pela grande janela da cobertura onde estavam. A lua cheia iluminava quase tanto quanto a luz do apartamento. Como era bom ser o único habitante daquele prédio, e estar tão perto de Deus e longe dos homens. Ainda faltava muito para chamar a casa de lar, mas em boa companhia, qualquer espaço decadente se torna aconchegante. Allan sabia que elas seriam curadas na terapia que tanto defendeu durante seus estudos.

          E ele começara a sentir fome. Quase onze horas da noite, deixou a roda e foi buscar um pedaço de pizza fria, resto do dia anterior.

- Vocês querem?

A agulha se recolhera no toca discos, o silêncio reinava. Amélia dormia com sua cabeça pendendo entre os joelhos. Nataly observava o encanto do céu estrelado, com os braços suspensos e abertos. Lívia mantinha-se numa oração secreta, Laura exibia seu ventre, que, após saber da gravidez pela boca dela, chamava mais atenção para o jovem psicólogo e Ana dormira abraçada ao caderno, com o sangue escorrendo pelas coxas, joelhos, tornozelos e pés, manchando o tapete da sala.

- Coitadinha de vocês – ele pensou.

(Barulhos de passos distantes pela escadaria do prédio.)

- Meu coração sofre com as dores de cada uma.

(Os passos vão se aproximando cada vez mais.)

- Descansem, amanhã temos mais uma sessão de terapia.

Com um forte chute, a improvisada porta de madeira foi ao chão. Policiais fortemente armados invadiram o apartamento e viram, sentadas em cadeiras dispostas em círculo, quatro mulheres e uma menina mortas, uma com o pescoço cortado após ser obrigada (segundo laudo posterior) a dançar por horas sem parar a mesma canção, seminua. Outra foi executada conforme os ferimentos de Cristo, tendo os pés pregados em um pedaço de madeira. A dançarina desaparecida da boate Sedução teve sua barriga aberta e morreu de hemorragia. Seu feto estava jogado ao seu lado. A estudante de fotografia foi transformada numa Águia de Sangue, e estava sentada bem próxima a estrutura da janela, que já não tinha vidros. A criança teve seus olhos arrancados com facas e foi cruelmente profanada após a morte. A noite estava estrelada, a lua cheia iluminava santos e pecadores.

Ao ser conduzido para fora do apartamento, Allan tentou despedir-se das pacientes, mas conforme mais policiais e investigadores entravam, não conseguia vê-las, e isso partia seu coração. Elas precisavam dele, não podia abandoná-las assim.

- Eu voltarei, garotas. Eu ainda vou curar as dores de cada uma de vocês. 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

PRELÚDIO AO TEMPO

 

Hoje vou parar o tempo

Irei parar as horas

Por um tempo

Momento afora

 

O tempo faz

O tempo traz

O tempo cria

Amor, sonhos, alegrias

União, amizades, fantasias

 

O tempo leva

O tempo destrói

O tempo mata

Amor, sonhos, alegrias

União, amizades, fantasias

 

Momentos, um beijo de amor

Saudade, depois da dor

Carinho, o vento a soprar

Afeição, que existia no olhar

 

O tempo é imortal

O tempo perpetua-se nos momentos

Tempo, não se leva

Tempo, não se destrói

Tempo e nós

 

O tempo não se cria

Tempo, não se faz

Tempo, nas esquinas das horas

Tempo que não é mais

Tempo sós

 

Quem me dera um momento

Que se ajuste aos meus pensamentos

Nesse tempo que de nada faz jus que se diga

Além de que ele faz-se

O grande, misterioso, essencial da vida.

 

1º lugar em POESIA no 2º Concurso Regional de Poesias, Contos e Crônicas Oscar Bertholdo.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Um brinde à solidão

Olá, conto sobre empoderamento feminino? Tenho sim! Ele é um dos contos da coletânea ESCRITOS PREMIADOS que mais admiro.
                 
            E ela permanecera sentada no sofá, respirando profundamente, brindando com a solidão.
            Cedo, antes do despertar do sol, Sofia, entre tantas escolhas, optou por si mesma. Naquela manhã tocou sua pele, marcada, com um afeto desconhecido, ímpar. Viu seus olhos no espelho e notou: eram castanhos, da cor de seus cabelos, da cor que vira que eram em sua infância. Ah, aquele Natal em que ganhara de sua mãe uma boneca, a qual nomeara de princesa Victória, que morava em um imenso castelo e que era cortejada por um príncipe, que a defenderia de todos os males, que daria a vida por um simples beijo, que, e eram tantos os quês, que alimentaram a sua pureza infantil.
            O sol entrava pela janela do quarto, devagar, aquecendo aquele ambiente tão frio, apertado demais para dois, assustadoramente imenso para um. Ainda contemplando sua imagem refletida, aos poucos o corpo de um ser humano ia tomando forma. O contorno feminino, por tantas vezes negligenciado, ia surgindo como uma imagem sacra. Braços, pernas, ombros, face. Sofia respirou profundamente e admirou o movimento de seu diafragma. Soltou o ar, suavemente, devagar como uma pluma solta a brisa de verão.
            Linha após linha ia delineando-se feições jovens, mas marcadas pelo chicote impiedoso do convívio com a loucura. Agora, já não era o rosto de outrora, e esse não voltaria mais, mas o olhar de ontem, perdido, que vinha se manifestando entre turbilhões de pensamentos confusos e insistentes. A cada segundo deleitava-se mais e mais com as ideias que emanavam de sua razão. Nesse momento era necessário ouvir a voz da tida consciência. Por que se calara antes? Por que nunca dominara as emoções que transbordavam seu ser? Por que Sofia não se ouvira antes…
             Pensamentos que tomavam conta de sua mente e arrepiavam sua pele. Queimava-a por dentro e partia seu coração. Viu seus olhos no espelho novamente e notou: eram castanhos, da cor de seus cabelos, da cor que vira que eram em sua infância. Já podia abri-los, já podia observar mais alto, erguer sua cabeça, olhar para um céu onde tudo é bom. Onde o amor prevalece e a vida possui sentido.
            E era isso que faria. Abrir as asas e voar. Ser outra vez ela mesma, resgatar a beleza de sua alma e não temer o próximo. Nem o próximo que divide o mesmo espaço que deveria se chamar 'lar'. Mas nunca foi um lar, nunca seria. Não dessa forma.
            Quantos anos de cativeiro nos braços da insanidade em uma relação doentia. Depois de muito observar, a completude de seu ser fez-se reintegrada. Unidos os pedaços dela espalhados pela casa, prometeu a si mesma que não choraria mais. Faria aquilo que precisava ser feito, que desejava como um sonho bom.
            E ele entrou pela porta da frente da casa, encontrando-a sentada no sofá. Ele foi seu abismo e sua salvação, seu alimento e sua fome. Teve fome de amor e alimentou-se do gosto amargo da insensatez. Ele foi um refúgio e um delator, uma coroa de espinhos num reino de sofrimento. Nos braços dele encontrou a guerra e perdeu a paz. Ele foi um amigo traidor. A cada toque ríspido em seu corpo, ele tentou mostrar que o amor era dor. E ela o olhava mais e mais, sentada no sofá. Ele foi o atalho que a levou para a escuridão, a ferida mal cicatrizada, o beijo que queimava sua boca e destruía seu coração. Ele era, mas não seria mais.
            Naquele momento, diferente de todos os outros, Sofia sentiu que existia, e nenhuma lágrima caiu do rosto dela. Ele entendeu. Ele não a reconheceu. Ele foi embora.
            E ela permanecera sentada no sofá, respirando profundamente, brindando com a solidão.

   1º Lugar - 2015 - Concurso Regional de Contos, Crônicas e Poesias Oscar Bertholdo