segunda-feira, 11 de março de 2019

PRISÃO PERPÉTUA


No Brasil temos uma legislação que não contempla a prisão perpétua. Na verdade, esta é uma discussão muito polêmica da atualidade. Tem cada pessoa que comete crimes horríveis, e cumprem uma breve pena para depois continuarem suas vidas normalmente, mesmo tendo tirado a de alguém para sempre.
Eu sou a favor da prisão perpétua. Existem casos que são inafiançáveis. E não escrevo somente daqueles crimes brutais, mas de algo que todos nós sofremos.
Deveria existir prisão perpétua para a pressa. Sim, na alta velocidade que as nossas vidas são guiadas, entramos em nossos carros, fizemos um caminho mecânico até o trabalho, retornamos dele cansados e dormimos, recomeçando a rotina no próximo dia.
Nesta pressa concretada na existência, não olhamos para os lados, e perdemos cada coisa... Há quem não viu aquela criança dando um beijo em sua mãe. Não vimos quando a namorada perdoou o namorado, e recebeu dele rosas vermelhas. Não deu tempo para presenciar o raio de sol esquentando as mãos do varredor de rua, bem cedinho nas calçadas, muito menos aquela menina feliz, pois os pais separados almoçarão, ambos, com ela.
Pior quando não vemos fatos da própria vida. Não pudemos ir ao aniversário de nossos irmãos, nem participarmos daquela janta que reuniu toda a família (talvez pela última vez). Por que não abraçamos mais nossos pais, quando ver eles todos os dias era mais uma rotina? Quantos “eu te amo” engolidos junto com a água da pressa e a falsa ilusão que tudo duraria para sempre.
Mas podemos ser felizes nas férias. Mas nessa época, nem se fala... Médicos para ir, compras para fazer, passeios para realizar. Quem se lembra de parar e respirar (você deve estar pensando: que bobagem respirar, eu faço isso todo o tempo), sentir o cheiro do verde, das águas, dos perfumes que se misturam. Respirar.
Ah, mas talvez não seja culpa da pressa, mas da falta de tempo. Será que se o dia tivesse trinta horas seria mais aproveitado? E se, acontecendo isso, o governo aumentasse a carga horária semanal dos trabalhadores, ou passássemos mais tempo dormindo... Dormindo por longas horas, dormindo para a vida lá fora.
De qualquer forma, o tempo também é o nosso vilão. Ocupamos nosso tempo comprando, trabalhando, dormindo, assistindo a vida dos outros na televisão, lendo sobre a vida alheia nos jornais, trabalhando, comprando, pagando, dormindo. Sem ressentimentos com o relógio, pobre injustiçado, apenas torna claro o que fazemos de nossos dias.
Outro elemento muito maligno é a noção de eternidade. Deveriam ter nos ensinado que nada dura para sempre. Quem sabe, desse jeito, ninguém mais dissesse “amanhã eu vou lá dizer que a amo”, “amanhã eu prometo que lhe visito”, “amanhã eu verei meus avós”...
Mas não existe prisão perpétua para esses inimigos da nossa vida. E a luta para nos mantermos longe deles é tão difícil, tão dura... Infelizmente a pressa para terminar esta crônica e viver o que o mundo tem para oferecer, abraçar meus pais e dizer que eu os amo, como nunca tive “tempo” para fazer é muito grande, preciso finalizar. Sorte daqueles que possuem mais que fotos para dizer o que guardam no coração... Na próxima crônica conversamos mais sobre a prisão perpétua.

O herói



Sim, ele era meu herói. No dia em que ele surgiu na minha vida, nada estava eu a esperar. Sentada no banco do ônibus, observava pela janela a metrópole acordar. Todos os dias inéditos no calendário, mas iguais para mim. Acordar, embarcar, desembarcar, trabalhar, embarcar, desembarcar, dormir.
E como todo herói percebeu que ali estava, vazio, o banco ao meu lado e minha alma naquele dia. Sentou-se perto de meu corpo e pouco virou seu olhar para mim. No trajeto até o centro, paramos na rodovia. Nenhuma explicação do motivo, nenhuma previsão de continuidade.
O meu herói, camiseta preta e calça jeans, tentou dormir ao meu lado, mas não o fez. Não era bonito, nem alto e forte. Mas, pouco importou.
De repente conversamos sobre o que não importava, sobre o que não nos pertencia, sobre o que precisávamos conversar num ônibus lotado.
            Em dois meses estávamos morando juntos. A família nunca reconheceu os poderes mágicos que ele possuía. Não entenderam. No dia em que sai de casa, deixei minha mãe e meus irmãos naquela pequena casa de madeira, e fiz questão de não olhar para trás.
            Logo estávamos em nosso castelo de alvenaria, numa floresta de concreto vertical. Mas, a cada beijo intenso, e carícia em meu corpo, tinha certeza que estava salva num castelo especial para nós dois.
            Larguei meu emprego, afinal, como ele dizia, princesas não precisavam trabalhar. Mantinha organizado nosso pequeno lar, tudo para agradar meu salvador nos momentos em que estava comigo. Mas, a rotina cruel nos mantinha cada vez mais distantes.
Meu herói dizia que ficava fazendo horas-extras no trabalho para poder colocar o arroz e feijão nos nossos pratos. Que o gato da luz nunca seria um problema, que sobreviver no morro era fácil para quem sabia as regras. Também dizia que era frescura desejar tantas coisas, no final, estar em seus braços era um grande presente.
            Toda a noite ele chegava tarde. Eu o esperava com o jantar aquecida, mas meu herói nunca comia, ia para cama cansado e dormia até o novo dia. Eu sei que não precisava, mas chorava baixinho para que ele não fosse interrompido com meus lamentos fúteis. Como era boba, sentir a dor de um vazio que não tinha razão de ser.
            O trabalho começou a sugar, como um grande dragão em chamas, os finais de semana que passávamos juntos. Sábados na loja de departamentos até tarde. Domingo participando de treinamentos para aprimorar-se na difícil lida laboral. E a solidão foi ocupando cada espaço de nossa casa, como um vilão poderoso e difícil de ser capturado.
            Um dia questionei meu ídolo sobre a distância entre nós. Sei que errei, fui uma tola. Mereci a mão pesada e fria em meu rosto. Doía mais que a solidão, mais que o olhar de meus familiares no dia em que saí de casa. E essa dor tornou-se mais presente, a cada madrugada em que o esperava acordada para pedir como havia sido o dia.
            Queria auxiliá-lo em suas missões, propus enfrentar com ele a batalha pela sobrevivência e voltar a ocupar um cargo em alguma empresa. Ele queria me preservar, uma dama como eu não deveria se expor a tantas pessoas insensíveis e perigosas. Expor-se sozinho à selva de concreto era suficiente.
            Tinha medo de sair, aos poucos acreditei que colocar o pé fora de casa poderia ser fatal. Minha companhia era a pequena televisão, que mostrava um mundo tão distante que nem conseguia mais compreender. Meu herói sabia de tudo, estava a frente de minhas crenças ingênuas. Nunca duvide, acredite e siga as regras.
            E então ele fez seu ato mais heroico para comigo. Naquela noite, entre afetos cortantes, perdi minha mobilidade das pernas. Mas ganhei asas.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Um caso de empresa

A evolução sem fim

O homem pode ser capaz de tudo por amor, por honra, por dignidade... E por instinto?



       Clóvis era um entregador de cartas. Todos os dias caminhava pela grande Rua Desire para fazer as entregas necessárias naquele dia. Porém no dia 15 de julho fora diferente.
       Acordara cedo para o seu trabalho. Estava cansado. Todas as semanas ele possuía o mesmo comportamento correto e nenhum reconhecimento da empresa. Seus colegas de trabalho, principalmente o alto e forte Rubens, vivia trazendo atestados médicos, e assim, trabalhava menos dias que todos e, na última semana, recebera aumento! Um canalha de sorte.
       Para enfurecer o homem mais ainda, esse morava na rota de entrega da Clóvis.
       - Chega, não lhe darei carta alguma! Vou abri-las e ler. Odeio esse homem.  – Pensava o carteiro humilde.
       Então um dia o ser masculino tinha que entregar justamente uma correspondência ao inimigo. Tomando-a em mãos ele sentou-se no cordão da rua e começou a violar o envelope. Tratava-se de uma carta que havia retornado ao remetente, Rubens, e estava destinada a um tal de Confidencio. Ela dizia:

       “Querido primo Confidencio, estou escrevendo após dez anos para que saiba um pouco sobre mim. Talvez nem se lembre de mim, mas eu não o esqueci. Hoje está um dia de céu azul, quente, sem nuvens. E aí?
       Bem, estou morando sozinho em uma nova casa. Comprei-a há uma semana. Ela situa-se no centro de Campana, na Rua Desire. Sua cor é branca e possui apenas um andar, dividido em sala, cozinha, banheiro, quartos e lavanderia. Também tem um grande jardim coberto por grama e flores. Um bonito lugar que um dia conhecerá.
       Gostaria de receber notícias da família. Lembro bem de todos nossos amigos íntimos. Outro dia estava pensando na Bianca, exatamente naquele episódio em que meu tio segurava uma arma contra minha cabeça e graças a ela, que acionou a polícia, fui salvo.
       Era um tempo bem difícil, meu amigo. Agora sou carteiro. É, trabalho muito para me manter na vida. No começo foi difícil me adaptar com a situação de ter que me submeter a certos atos para desfrutar de um salário melhor. Esses fatos noturnos me fazem sangrara por dentro.
       Mas, como no papel é pouco, sinto que devo me despedir sem mais narrar. Um grande abraço e espero seu comentário. ”

       Clóvis comoveu-se com a correspondência e resolveu não a devolver, mas fingir ser o tal primo e responder conforme imaginasse ser mais coerente.
       Se antes via o rival como uma peça prejudicial à sua carreira, agora sentia pena, pois inferiu que o pobre homem deveria manter alguma má subordinação para com o chefe. Isso era algo que ele, Clóvis, não faria, era integro.
       Na casa, após o expediente, o carteiro escreveu uma resposta para Rubens, contando sobre a família, que estava bem, sobre a felicidade em receber notícias e marcando um encontro na biblioteca da cidade, mais especificamente na isolada e minúscula sala de leitura.
       Isso seria no sábado às quatro horas da tarde. Ninguém estaria no local, somente os dois homens e as funcionárias, que pouco reparavam nas pessoas que transitavam no prédio recheados de livros.
       O encontro aconteceu, e foi surpreendente. Acompanhem:
       Na hora marcada Rubens entrou na salinha e percebeu que as luzes estavam apagadas, as cortinas fechadas e ele mal podia enxergar as paredes repletas de estantes suportando grossas enciclopédias.
       - Feche a porta, meu primo! – Uma voz mansa pediu para o homem.
       Com a mão fria sob a maçaneta, ele puxou a abertura até cerrá-la, ficando sozinho com a voz misteriosa.
       Do lado de fora se sentiu o barulho da chave trancando o local, com ambos dentro.
       Na rua os ratos corriam desesperadamente. Estranho como esses animais convivem tranquilamente ao habitat naturalmente humano. Marrons, brancos, cinzas, diversas cores.
       Eles buscam os restos, submetendo-se a qualquer situação e local na procura por uma vida digna. Roem o queijo e não observam quem os dá, nem como o fazem. Felizes, pois seu cérebro não comporta diversos aspectos humanos, apenas os da sociedade civilizada dos roedores.
       Nenhum outro animal os adverte dos seus atos, pois perderiam seu status quo e sentir-se-iam menores, iguais aos bichinhos pequenos. Deixariam de serem deuses para serem seres vivos inferiores.
       Algo mais digno que o homo sapiens: eles preservam a própria espécie.
       Do lado de fora sentiu-se o barulho da chave destrancando o local, e ambos saíram.
       A noite veio, passou o final de semana e iniciou-se mais uma rotina de trabalho na empresa de telégrafos. Rubens aparentava uma alegria sobrenatural, cumprimentava a todos como a um irmão e anunciava estar curado da depressão que possuía. A mesma que o fazia ficar sempre em casa com falsos atestados médicos. Nunca estivera doente, apenas deprimido. Já Clóvis chegou atrasado ao local, sério, não falou com ninguém e seguiu ao depósito das correspondências a fim de pegar as de sua responsabilidade e partir para a triste jornada.
       Quando estava pronto para sair, sentiu uma mão em seu ombro, que o fez virar e ver o antigo rival fitando-o sem parar. O homem renovado pronunciou:
       - Falei com meu chefe, agora você é meu subordinado, ex-colega.
       Essa subordinação nunca existiu. Provavelmente aquele neurótico deveria ter negociado com o patrão em troca de favores prazerosos. Sentiu muita raiva. Como podia ser tão cínico? Aquela tarde ele havia trocado o sigilo sobre o segredo de Rubens por atitudes primitivas e agora o homem tornou-se seu chefe.
       - Isso se chama evolução das espécies, meu bem. Ou você manda ou você permanece subordinado. – Disse o realizado colega em sua nova função.
       Clóvis sentiu um mal intenso. Precisava mudar essa situação dramática. Naquilo viu que alguém novo acabava de ser contratado. Um jovem ingênuo e o melhor: sem ninguém específico para mandar-lhe, sem alguém que pudesse manipulá-lo, subordiná-lo.

       O homem sorriu.  

Por que não ela?

Por que não ela?




            Por que não Mariana, que nas brincadeiras de escola sempre apresentava as melhores ideias e soluções para as discórdias. E bem ela que sempre tirava as melhores notas e adorava ajudar as professoras a carregarem seus livros de uma sala a outra.
            E logo ela, a menina morena de cabelos desgrenhados, que subia com agilidade em qualquer planta para colher os frutos mais maduros para si e seus amigos. Com seu jeito de moleque, participava de todas as peladas de final de semana com os meninos da rua, preferindo sempre atuar como atacante.
            Mariana, que chorou intensamente a passagem de sua mãe para terras as quais nem sonhamos definir, e anos depois, aos sábados, organizava a casa para sua madrasta cantando versos de festa e paixão.
            A menina que adorava cuidar de seus cães na fazenda, e levava-os passear pelas estradas de chão no final da tarde, acompanhando-os também na observação atenta do mundo ao seu redor.
            Por que não Mariana que concluiu seus estudos sendo minha colega até o final do Ensino Médio. A garota que cresceu e dividiu comigo as ansiedades do primeiro emprego e do primeiro salário.
            A mesma que me parabenizava no dia de meu aniversário, puxando minhas orelhas, enquanto contava a quantidade de anos que marcava cada data. Que adorava caminhar descalça pela grama do pátio imenso, não se importando com a terra e pó no seu andar.
            E a cada dia que passava ela ficava mais e mais linda, e eu perguntava, no silêncio de meus pensamentos, “por que não ela?” Mas as respostas deveriam estar tão e tão longe de mim, que nada ouvia. Nada recebia que calasse minha indagação.
            Num dia cinza, daqueles frios de inverno, eu vi Mariana pela última vez. Ela saiu de sua casa, vestindo um grosso e longo casaco preto, carregando nas mãos duas malas marrons. Enquanto ela partia, repetia incansavelmente seu nome sem dizer uma palavra. Meu olhar acompanhou-a perdendo-se entre a neblina. Escutei apenas o barulho do portão fechando.
            Voltei para dentro de minha casa, tentando aquecer algo que congelara em meu peito. Mas nenhuma bebida quente pôde quebrar o gelo de um coração partido. Por muito tempo observei em minhas lembranças aquela pintura Dantesca, trágica como Hamlet.

            Se eu pudesse voltar atrás, na tarde em que éramos jovens e o mundo resumia-se em uma árvore, um balanço, eu e ela, teria dito, ao ter sido interrogado por Mariana, que eu de fato não estava bem, que dentro de mim um sentimento nascera e há muito tentava evitar. Ao invés de tanto pedir para mim mesmo “Por que não ela?”, naquele momento teria gritado: por que não você ao meu lado para o resto da vida?

A Vontade - Etapas de uma loucura

Resultado de imagem para drawing from insane people

Nunca escrevi um texto tão pesado. Estão alertados


A vontade é um processo de quatro etapas: estímulo, indecisão, decisão e execução. Eu acrescento um: resultado.
       Na grande cidade chamada Condorázia, habitada por cem mil pessoas, acabava de se formar em psicologia o grande Abrão Costa Veríssimo Jr, filho único de Abrão Costa  Veríssimo e Piedade Veríssimo. Agora esse fruto pródigo seria um participante da alta sociedade, sendo denominado apenas como Veríssimo Jr. A honra da família e o futuro membro do mais digno mundo culto.
       Ele iniciaria seus atendimentos na segunda-feira próxima. Apenas uma paciente, uma mulher chamada Isabela. Idade: quarenta anos. Mais detalhes: nenhum.
       Era tudo o que sabia sobre ela.  Estava muito ansioso, finalmente colocaria em prática o vasto conhecimento adquirido ao longo de seus fervorosos estudos. Quantas noites sem dormir estudando, quantos livros lidos. Era a realização de um sonho.
       - Freud orgulhar-se-á de mim! – Exclamava diante do espelho, fitando-se dentro de seus próprios olhos negros.
       Esses atos aconteceram no domingo. A noite passou e finalmente chegou a manhã do dia tão aguardado: segunda-feira.
       Feliz, Veríssimo Jr. vestiu seu terno italiano, gentilmente dado por seu avô paterno,  limpou a lente de seus óculos e colocou-os em seguida. Por fim, penteou os curtos cabelos escuros e pôs os sapatos pretos, lustros como todo o restante do consultório novo. Uma sala no melhor prédio da cidade dada por seu pai como presente de formatura.
       Arrumado, o homem, ou melhor, o senhor, caminhou até o portão de sua casa, por onde sairia para seu primeiro dia de jornada.
       Eram sete horas da manhã. Na casa da frente Clara saía para ir ao colégio. Ela era uma moleca de quinze anos, linda como a mais bela das musas. Trajava a saia da escola, com suas sapatilhas pretas e a camisa da instituição educacional. Ao ver o psicólogo parado a fitando, acenou-lhe, cumprimentando-o.
       Ele respirou fundo, tinha a visto nascer e crescer. Diversos finais de semana viu-a brincando com as crianças vizinhas enquanto estudava para o vestibular. Isso havia oito anos. Mas, retomando o que iria fazer, entrou no seu carro, o qual estava estacionado na rua, e dirigiu até a sala de trabalho.
       Lá o ambiente era lindo. As paredes brancas sustentavam poucos quadros cubistas. Os sofás, um de frente para o outro, transformava o local em um sítio aconchegante. Ao lado esquerdo da sala, uma estante cheia de livros. Todos sobre psicologia, e nenhum outro assunto.
       Enquanto a paciente não chegava, ele sentou-se em sua cadeira e pôs-se a contemplar o local, seu lugar.
       Isabela chegou às nove horas. Era uma mulher atraente e não possuía nenhum anel que denotasse compromisso com alguém. Também possuía uma voz doce, revelada através do rápido diálogo com a secretária Gertudres, na sala de espera. Não aparentava problemas.
       Mesmo Veríssimo estando solteiro aos trinta e oito anos, tratá-la-ia profissionalmente. Para tanto imaginaria a maturidade adquirida quando conseguiu ingressar na universidade, após voltar da França, onde estudava o idioma local. Esse fato o marcara, pois era um dos alunos mais velhos a frequentar as disciplinas do curso de psicologia, e isso o fazia sentir-se mal. Tivera que realizar o vestibular aos vinte e oito anos! Que tormento para alguém tão culto. Mas prossigamos.
       - Sente-se e fale sobre o que lhe incomoda, ou melhor, sobre o que quiser! – Afirmou o homem após ambos estarem acomodados em seus respectivos lugares.
       Ela começou a contar sobre sua vaidade, extrema, seu trabalho na loja de conveniências, sua rotina em assistir novelas, etc... Quando faltavam dez minutos para o final da sessão, escapou-lhe a seguinte afirmação:
       - Às vezes minha razão não concorda com certos atos que pratico, não sei explicar. Cuido de um menino, sabe... Sinto um desejo e após executo. Vendo o resultado sinto fortes arrependimentos, mas sinto o prazer de ter realizado.
       Durante a fala da paciente, o senhor via imagens de Clara, sempre esperta no jardim de sua casa aos domingos. Linda moleca. Parecia um transe que tomava conta de seus pensamentos...
       - Bem, já é hora de terminar. Até semana que vêm. - Falou Veríssimo despedindo-se de Isabela.
       Nesse primeiro dia não havia mais pacientes, o jeito era estudar o que ela tinha. Mas o homem, sempre culto, já definira como “vontade anormal”, isto é, a mulher não seguiria o ciclo normal desse fator, que seria estímulo, indecisão, decisão e execução. Inferência pessoal. O que ela fazia? O que significava o menino? Que prazer era esse? Deveria descobrir aos poucos, como um senhor equilibrado.
       Durante o solitário almoço, o psicólogo tentou colocar-se no lugar de Isabela. Imaginou-se em uma casa com uma menina a brincar até o momento em que ele resolvesse...
       Não, que pensamento indigno! Não poderia estar acontecendo isso, seria um crime! Nesse caso não deveria ser resolvido por ele, mas por uma delegacia. Intolerável, repugnante e inimaginável. A mulher não poderia sentir prazer com essa maldade. Clara? Deveria parar de pensar nisso. Tinha vinte anos a mais que a doce garotinha. Controlaria suas forças instintivo-emocionais. Era um grande homem, um senhor.
       Assim almoçou. O dia continuava passando. As pessoas agiam, escrevendo suas histórias vitais enquanto um vento regia a sincrônica respiração.
       Após a tensa tarde, Veríssimo dirigiu-se a sua casa e ao chegar a frente ao seu portão viu que a musa de seus pensamentos repreendidos beijava ardentemente um outro jovenzinho, que após o ato afastou-se dela até sumir. Clara, percebendo o olhar fixo de seu vizinho Abrão, acenou-lhe como de costume.
       Sentia o homem dentro de si uma confusão de sentimentos. Sua mente lembrava-o do filósofo Nietzsche colocando que aquilo que se faz por amor está além do bem e do mal. O corpo pedia uma execução do estímulo que brotava da sua mente. Ela era linda e acabava de virar-se para entrar em seu lar. “Cuido de um menino... sinto o prazer de ter realizado”, ouvia Veríssimo nitidamente, latente em sua memória. Clara. Isabela. Um homem.
       Clara permanecia na calçada. Impulsivamente ele chamou a menina pedindo que ela o acompanhasse até sua casa. Seria rápida a visita. Sorridente e com toda a sua inocência, a menina aceitou. Os dois entraram silenciosamente pela porta. Depois de cerrada, o vespertino tornou-se noite e continuou  a enfeitar o escuro céu. As estrelas formavam diversos desenhos e pareciam dançar ao redor da lua. O vento quente, típico de uma noite de verão, era um convite para um brinde apaixonado.  Uma madrugada longa.
       Na manhã seguinte, às sete horas, apenas Abrão saiu do lar para cumprir sua rotina de trabalho. Ninguém mais veria a linda moleca.
       Quando chegara ao consultório, para sua surpresa, encontrou Isabela sentada à sua espera. Chorava muito, mal podia respirar. Suas mãos tremiam e a palidez cobria seu semblante vaidoso. Algo ruim deveria ter acontecido. Sério, pediu para que ela o acompanhasse.
       Ambos entraram no espaço de consultas e a mulher iniciou seu desabafo:
       - Não pude esperar até a próxima semana, aconteceu algo horrível. Lembra que eu falei sobre um menino? Ele tem quinze anos e hoje fugiu de casa após saber, por intermédio de uma coleguinha, que sua grande paixão também o fizera. Não sei se realmente fugiu, apenas ninguém sabe nada sobre ela, nem pais, nem a escola. Talvez seja cedo para pensar no pior. Não sei se você a conhece, seu nome é Clara Silva. 
       E prosseguiu emocionada, entre soluços:
       - Sempre fui exagerada na vaidade e chamava muita atenção, pois me dava prazer. Isso me fazia sentir culpada, pois me sentia superior a todos. Esse era o maior problema que possuía e que me levou a lhe procurar. Hoje com esse acontecimento acordei curada. O que faço?
       Clara. O garoto de quinze anos, a musa, Isabela, um homem, a pintura mais imperfeita de um pintor. A moleca não havia fugido e  o psicólogo tinha certeza disso. A noite passada pesava-lhe na consciência, mas sentia o prazer de ter realizado sua vontade, e por amor.
       - Acho que você não precisa mais de mim. Está curada. Pode partir e tente entender: o que se faz por amor está além do bem e do mal. – Proferiu o senhor Veríssimo, o psicólogo, à mulher, que foi embora sem mais voltar.
       Passou o tempo. Os livros foram mantidos na prateleira. O consultório foi fechado e ninguém mais pisou naquele lugar. A casa de Veríssimo fora abandonada, sumindo entre os arbustos que se ergueram no jardim. Clara ficou na memória de Abrão, sua eterna musa fria e insolente, que não compreendeu até o final o grande amor que ele sentia. Nem retribuíra! Queria esquecer aqueles momentos. Não conseguia.

       Olhando-se no espelho retrovisor, o psicólogo percebeu, em seu carro antes de conduzi-lo de forma a sumir para sempre, que ele era o senhor da cultura, Veríssimo Jr., a grande honra da família, um homem, um demente e apenas mais um animal.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Cadê o príncipe?


            Eeeeeeeeeeaí gente faceira, tudo certo? Não acredito, nesse verão tem gente que não encontrou o príncipe encantado? E então lembramos de frases antigas como "tudo tem seu tempo", "existe um chinela velho para um pé cansado". Traduzindo, um dia você desencalha!

             Escolhi essa imagem acima pois me fez pensar nesse tema. Fico imaginando o homem mais velho dizendo "na minha época eu pegava todas.."kkkkkkkk

             Bom, para encontrar o príncipe encantado você NÃO pode seguir os seguintes tópicos, pois cairá nas garras da pessoa errada. Veja:

1°: Ele precisa mandar flores (qualquer imbecil liga para uma floricultura e encomenda flores, agora quero ver essa criatura entregar pessoalmente na frente dos amigos!);

2°: Precisa curtir seus posts no Facebook (será que é ele mesmo que curti?, eu não preciso ler para curtir algo, tão fácil...);

3°: Tratar como uma princesa (cuidado, o lobo mau foi muito simpático antes de tentar comer a Chapeuzinho Vermelho);

4° Ter dinheiro (não que seja ruim, mas acrescente de fontes legais, kkk);

5° Ter bom humor ( bom humor a sós com você também).


        Quer achar o príncipe encantado? Assista os filmes infantis, hahahahahaha.

        O tal "príncipe encantado", que eu espero que você encontre, tem que te fazer sorrir quando você acha que nada mais tem graça. Quando o mundo estiver acabando, precisa demonstrar que até nesse momento estará com você.
       Ele rirá com você quando ambos esquecerem o 'mêsversário' de namoro, e quando você estiver com medo, será seu porto seguro.
      Você precisará ajudar esse homem, pois como ser humano, um dia as paredes ruirão, e ele aceitará sua mão estendida para cruzar pelos destroços.
     Talvez não abra a porta do carro, nem compre flores, mas abrirá todos os seus horizontes e plantará flores em sua caminhada.
     Juntos vocês construirão diversas pontes, ligando diferentes pessoas e lugares. Alguns velhos álbuns podem ser fechados, livros concluídos e carnês quitados. Outras prestações virão, amigos, filhos, cachorros e gatos.
     Depois daquele dia em que tudo dará errado, depois de silêncios e reflexões individuais, a conclusão inevitável acabará sendo traduzida, lado a lado sob os lençóis, num sussurrado "eu te amo".
         Ele terá bom humor, mesmo quando suas piadas forem extremamente sem graça, assim como ficará sério com dias cinzas. Quanto terá de dinheiro? Não medimos a existência pelos papéis numéricos acumulados. 
         E nas redes sociais curtirá seus posts, lendo e sentindo o quão importante para você foi compartilhar seu passeio com os amigos, o almoço em família ou o cachorro de estimação. Talvez não curta imediatamente, mas estará pensando no quão sua presença é fundamental em sua vida.
            Você brigará com seu príncipe. Talvez ele jogue as roupas sujas pelo quarto, ou esqueça de algum recado seu. Talvez vocês não queiram a mesma coisa no mesmo momento. Mas, ainda assim, no fundo do peito, sabem que tudo isso é muito superficial pelo tamanho do reino de vocês.

            Boa sorte na jornada, galera!

domingo, 25 de dezembro de 2016

Mensagem de texto

     Eeeeeeeeeaí pessoal, tudo no agito? Esse conto que posto hoje recebeu o 2º lugar no Concurso Regional de Contos, Crônicas e Poesias Oscar Bertholdo deste ano de 2016. Espero que curtam!!!


       Bom dia. Eu espero que esteja indo bem para você. Não sei quando lerá minha mensagem, e profundamente anseio que a deguste em demorados goles. Lembra daquele dia que lhe pedi informações sobre onde se localizava a secretaria do curso? Isso foi o que eu disse, mas eu queria ter dito muito mais.
      Queria ter contado toda as minhas histórias até aqui. Narrar que tenho sede dos seus beijos. Dizer que sinto muito frio no inverno pois minha casa é humilde. No verão, adoro mergulhar no lago da minha cidade. Sei nadar e amo água. Revelar que tenho medo do escuro e, durante o dia, aproveito o sol ao máximo. Os raios iluminados brilham pelas aberturas da loja onde trabalho. Contei que sou vendedora? Meu chefe sempre diz “não venda produtos, venda realizações” e blá, blá, blá.
      Naquele momento em que olhei em seus olhos desejei dizer que o brilho deles me cegou. Mas também que fico enjoada cada vez que faço viagens longas de ônibus. Que meus tipos de livros favoritos são suspense e romance. Que queria ter uma história de amor com você. Contar que aprendi a caminhar com um ano e perdi-me no centro da cidade aos quatorze.
      Mas eu somente pedi onde ficava a secretaria. Pensei em sentar-me ao seu lado e revelar que morro de medo de escorpião, tenho dois cachorros e adoro ouvir o cantar dos pássaros. Que minha comida favorita é arroz e feijão, porém não sei deixá-lo com a quantidade de sal correta (por enquanto). E queria ter beijado-o.
      Desejei cantarolar, ao seu ouvido, velhas músicas esquecidas. Cantar contigo os refrões mais insignificantes. Dançar no meio do saguão canções descompassadas, tropeçando em seus pés e nuvens. Lhe contei que costumo acreditar em anjos da guarda? Queria ter lhe dito… Que sinto alergia ao pólen e adoro beber suco, em especial de manga. Quantas coisas, quantos detalhes.
Relatar que as coisas que eu queria dizer me inspiraram a despejar minha narrativa nesse papel. Que esperei a cada segundo para ouvir a sua voz entoada ao meu ser. Esperei cada laçada dos ponteiros do relógio. Bati meu coração com a frequência da espera de um presente de Natal. Quando indicou-me a direção que seguir, queria que tivesse dito para ficar ali, compartilhando do mesmo ar, sonhos, frustrações, loucuras e vazios.
      Ontem precisei ir ao mercado. Gastei muito mais do que havia calculado. Como os preços aumentam a cada semana. Chamam isso de inflação, mas eu chamo de excesso. Você viu que haverá greve dos auditores? Os motoristas também estão ameaçando entrar em greve se os salários não aumentarem.
       Tenho tanto para lhe dizer, gritar de coração. Acho que pareço boba derramando todo esse lirismo em seu olhar. Nem sei quando contemplará minhas palavras e como as tratará... Não receba-as como água, pois ela purifica, mas escorre entre os dedos e nos deixa sedentos. Não as trate como fogo, pois ao queimar-se poderá sofrer. Não seja nem terra, nem ar. Por quê? Não sei. Simplesmente as receba. O que fará com elas? Prefiro não saber.
       De repente acho que estou idealizando muito, minhas percepções, julgamentos, sentimentos e você. Não sei. Às vezes achamos que uma ilusão é de fato um oásis no deserto. Às vezes ignoramos a água e morremos de sede. Não sei... Mas tudo que eu consegui fazer foi lhe pedir uma simples informações. A propósito, eu sabia a localização da secretaria.

      Bom, espero que tudo esteja indo bem para você. Não sei quando lerá minha mensagem, e profundamente anseio que não a cuspa em terras desconhecidas. Lembra daquele dia que lhe pedi informações sobre onde se localizava a secretaria do curso? Isso foi o que eu disse, e eu não consegui dizer mais nada.